Papo com Rogério Teruz

Arte e Tempo

Orlando Teruz e  Nilza Teruz, 1935

Orlando Teruz e  Nilza Teruz, 1935

- Não existe a verdade da arte. A verdade da arte está no tempo. Daqui muitos anos você vai saber quem foram os bons pintores de hoje. Demoramos esse tempo todo para sabermos quem foram os de ontem. Porque enquanto não tiver o tempo filtrando, a verdade se faz por interesses. Mas na verdade ninguém sabe da arte! Meu pai (Orlando Rabello Teruz) é que tinha razão. Quando alguém elogiava a arte dele, mas dizia que não entendia nada de arte, ele respondia: "Mas nem eu! Eu faço isso porque eu faço". Agora você me diz se isso não é espiritual. Meu pai com 8 anos de idade foi com o pai dele (que detestava arte) para o Cairo. E la ele conseguiu que alguém do hotel o levasse ao Museu do Cairo. Quando ele viu aquelas obras que não tem nada a ver com pintura, mas que são as Artes Egípcias do tempo dos Faraós, aqueles afrescos com mais de cinco mil anos, aquelas figuras egípcias pintadas sem o conhecimento da perspectiva, aquilo tudo bem simples e bem primitivo, impressionou ele de uma forma que colocou na cabeça que queria ser pintor. E assim foi. Sempre estudou em detrimento da vontade do meu avô que detestava essa ideia porque queria que meu pai fosse comerciante, assim como ele. As vezes meu avô entrava no atelier do meu pai que era no porão da casa e batia nos quadros para estragar! Ironia do destino... Meu pai foi pintor e no final da vida era ele que ajudava meu avô com o dinheiro que ele ganhava da arte, que ainda não era muito mas ja era o suficiente. Por sorte ele se casou com uma mulher pobre, minha mãe. Que disse a ele "Você vai continuar trabalhando com a pintura e não importa. Eu vou fazer minha parte, a gente vive juntos e não precisamos nos casar". E minha mãe só viabilizava e apoiava o trabalho dele. Um pouco antes do meu pai conseguiu ir para a Europa, e realizar o sonho da sua vida que era ir para Paris, minha mãe engravidou de mim. Ele ficou bastante tempo la, com o apoio total dela! Mas estourou a Guerra e ele teve que voltar. Minha mãe foi assim, sempre meu pai em primeiro lugar e sempre a profissão dele em primeiro lugar. Nada de ganhar dinheiro. Claro que ele fazia em paralelo muitas coisas comerciais. Pintou muitas caixinhas de bombom, mesas de centro, retratos... Teve uma hora que a situação apertou demais, mas mesmo assim não se afastou da pintura. Um amigo dele, Gustavo Romero que era um advogado da prefeitura, arranjou um emprego para a minha mãe que trabalhou ali até ficar tubércula e ter que sair para se cuidar. Foi um começo de vida bem difícil... Meu pai vendeu tudo, ele só não vendeu a geladeira e o fogão. O fogão pra fazer comida e a geladeira para guardar as injeções da minha mãe. E eu passei por isso tudo e senti isso na pele desde pequeno. Eles viveram juntos mais de cinquenta anos. Era um casal que discutia, mas não brigava jamais. Cada um tinha uma maneira de pensar, e isso era respeitado. Ela era muito prática e ele muito romântico.

Viagem ao Cairo em 1910. Sobre os camelos, Jorge Rabello Teruz e Alzira Rabello Teruz. Sentada no burrico da esquerda, Marietta Teruz.No segundo burrico da esq. para a dir. Orlando Rabello Teruz (então com 8 anos de idade– ele veste um casaco branco e um chapéu beige), e no burrico da direita Hercília Rabello Teruz. No Colo de Jorge Rabello, Antônio Rabello Teruz.  

Viagem ao Cairo em 1910. Sobre os camelos, Jorge Rabello Teruz e Alzira Rabello Teruz. Sentada no burrico da esquerda, Marietta Teruz.No segundo burrico da esq. para a dir. Orlando Rabello Teruz (então com 8 anos de idade– ele veste um casaco branco e um chapéu beige), e no burrico da direita Hercília Rabello Teruz. No Colo de Jorge Rabello, Antônio Rabello Teruz.

 

Um material

Siccatif Flamand, secativo

Siccatif Flamand, secativo

Siccatif Flamand. É um médium que tem uma cor de mel e você mistura na tinta. Na verdade ele é um secativo. Ou seja não funciona em grandes superfícies. É para ser aplicado nos pequenos detalhes que estão sendo trabalhados. A grande vantagem dele é que ele faz o que você quiser, ele permite que os tons se fundam melhor, então pra pequenas coisas é perfeito porque você vai levando a cor, ela te obedece! Não é que nem aquarela que tem vida própria e que você pinta com borrões. O secativo funciona para essa precisão na pintura.  Todos os pintores antigos, Bosch, Pieter Bruegel, que faziam aquele rosto perfeito com a sombra perfeita, todos eles usavam. Ele da à pintura uma vida eterna!  Eu usava muito isso na minha pintura, e meu pai usava secativo em tudo! Eu também gostava muito de pintar com um produto que você aplica como máscara. A grande vantagem é que você descola da tela a forma do que você quer fazer. Vira uma película. Você aplica com um pincél, igual a verniz e depois é só puxar. É um líquido a base de latex natural.

- E o Liquin? (Mostro para ele) 

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 - Nem sei o que é isso. Hummm, mas é feito com resina mesmo, tem cheiro de pintura antiga, muito bom!

Transparência

- Tudo é transparência. O branco só se usa como base. Presta atenção. Todas as vezes que você usar branco em qualquer cor,  você faz a sua tinta ficar opaca e daí perde toda a vida. Pega um branco, e faz essa experiência. A tinta branca é quimicamente muito melhor que o branco da tela, então é boa quando usada apenas como base. Isso por si só já da a transparência para a pintura que será feita por cima. Agora, se você misturar o branco a qualquer cor, a tinta fica leitosa e perde a vida da cor, deixando de ser transparente! O branco serve para matar defeito.

- Então como se chega num tom de azul claro? 

- Tirando. Emplastrando de azul e tirando o excesso da tinta. 

 - Mas eu uso muito branco em todas minhas pinturas! 

- Se você preparar bem a tela  e pintar da maneira como você pinta e depois envernizar, você vai trazer vida para o quadro. Mas para isso é preciso ter uma tela muito bem preparada, senão ficam áreas que retém mais o verniz que outras e a tela mancha. Não usar branco é um outro caminho. Por exemplo cor de pele sem nada de branco:  É Terre D'ombre bem escuro e você vai tirando os excessos criando os tons, mas isso realmente só funciona em tela bem preparada, senão as partes mais escuras agarram na tela e fica bem difícil de manusear.

Domindando a preparação

- Preparar a tela esticada no chassi é muito sofrido. Então a melhor maneira de você fazer é  pegar o chassi que você quiser e pregar nele um compensado de madeira. Aí você estica a tela por cima do compensado. Primeiro você uniformiza, ou seja,  antes de fazer isso, você lixa a parte de trás da tela para não deixar pontos do linho ou do algodão fazendo volume (que podem prejudicar na hora de lixar a parte da frente). Uma vez que você fez isso, você começa a emassar a tela, já esticada, com Gesso ou pode até misturar massa corrida de parede com tinta branca Latex. Quase meio a meio mas um pouquinho mais de massa do que tinta. Deixa a mistura ficar bem homogênea. De preferência usar a mistura três dias depois de feita. Depois de emassar você lixa. Se ficar algum defeito ou alguma diferença em algum lugar é preciso emassar de novo, mas não somente o lugar afetado, tem que ser a tela inteira. E então se lixa novamente. Até aquela superfície ficar como um marfim!  A lixa pode ser uma bem fina tipo 180 ou  200. Depois você da uma mão bem aguada de tinta de parede com rolo. Mas o rolo não pode ser aquele de carneiro que deixa marcas. Nem o de espuminha que deixa espuma. Existe um rolo de pêlo que deixa a superfície bem lisa.

- E para fazer isso em um quadro grande?

- Aí só quando você mora nos EUA que você compra a tela preparada...

Melhor pintor do mundo

- Albrecht Durer e Hieronymus Bosch.  Eles pintavam com essa técnica de secativo. O dia que você for a Madri você tem que ir no Museu do Prado. La tem os dez melhores painéis do Bosch. Ele pintou pouco, mas cada painel dele tem duas mil figuras, que ele levou anos fazendo.

Inspiração

- Eu acho que essa inspiração é uma coisa inexplicável. Não é qualquer um que é assim, senão todo mundo seria artista! Mas eu acho que o verdadeira artista, aquele que vive a arte, que produz mesmo, eu acredito que é uma coisa meio espiritual. É algo que você não tem explicação do porque você consegue fazer aquilo, e nem sempre você aprendeu! É uma coisa que está impregnada em você… É uma pena que o mundo mudou. Hoje em dia para ser um pintor ou você tem que ser comercial ou você tem que viver de uma outra coisa. Nos tempos antigos também tinha isso, a igreja colocava você no atelier produzindo, com casa, roupa lavada e um dinheirinho. Mas colocava uma série de imposições sobre a pintura...

- E a arte de rua?

- Tem muitos grafiteiros maravilhosos. Mas eu acho que a arte de rua desmistificou um pouco algo na arte…

O começo

- Eu acho que todo mundo que começa é ruim. Todo mundo que começa não consegue fazer aquilo que quer. Ele só vai começar a carreira dele o dia que ele dominar a pintura. Mes mesmo assim, meu pai com 60 anos de pintura muitas vezes não conseguia fazer aquilo que queria. Então eu sempre falo que quando o quadro fica pronto ele pode ser visto de três maneiras: ele ficou além do que eu esperava; ele ficou exatamente as minhas expectativas; ficou abaixo das minhas expectativas e vem aquela frustração.Mas antigamente tinha essa vantagem né, a pessoa era pintor e pronto! Não existia esse comércio que começou no século XIX, quando surgiram os grandes marchands. O pintor nunca ficava rico, mas eles (os marchands) ficavam. Aí começou a comercialização da obra de arte que ainda não existia. Porque até então a arte era bancada por um mecenato. Então o mecenas que era o cara que acreditava no pintor, dava um dinheirinho pra ele e deixava ele ficar em casa pintando. Assim como o irmão de Van Gogh fez com ele, por exemplo. Não deixava ele aparecer nunca, e ficava com o trabalho dele! Vang Gogh ficou no ostracismo enquanto pintava, e o irmão dele enriquecia com aquilo. Essa figura não existe mais. O mecenato acabou.

- E as galerias?

- Elas não te sustentam. 

Disciplina

- Pintura tem que ter disciplina. Meu pai acordava as 5hrs da manhã e as 5:30, quando o primeiro raio de Sol atingia a tela ele começava. Dali até finalizar o dia. Ele nunca pintou com luz artificial.

A cidade mais linda do Mundo

- Bruges na Bélgica. É uma cidade toda de canais, mas é do século XII. A cidade não foi planejada, ela foi acontecendo então é tudo inesperado. Eu adoro Bruges, essa seria a cidade que eu viveria… Sabe qual é a vantagem nessas cidades da Europa? Se eles souberem que você pinta, você tem um prestígio danado! Uma vez estava eu e meu pai em Roma e nós chegamos em um desses restaurantes que ja estava fechando, e todos com uma super má vontade. Daí nós contamos que estávamos chegando, que meu pai estava fazendo uma exposição no Consulado Brasileiro em Roma... " - Seu pai é pintor? Os dois pintores, pai e filho? Olha eu mesmo vou abrir o restaurante do hotel e vou preparar um jantar para voces!". Tudo mudou e ele preparou uma truta inesquecível. Isso é uma coisa que o Brasil não tem, esse prestígio ao artista.

Um sonho

- O meu sonho seria aparecer alguém aqui amanhã e falar: "Olha fica na sua casa, pintando, você vai ter o mínimo possível; casa, comida, mas tudo que você produzir é meu". Eu aceito na hora! Se ele me der o mínimo de condição de sobrevivência eu escolho fazer o que eu gosto.

Ver também S.O.S Restauração com Rogério Teruz